Carta de Lúcio Lara aos camaradas em Conakry

Cota
0014.000.004
Tipologia
Correspondência
Impressão
Dactilografado (2ª via)
Suporte
Papel comum
Remetente
Lúcio Lara
Destinatário
Camaradas de Conakry
Data
Idioma
Conservação
Mau
Imagens
2
Observações

Foi publicado no 1º Vol. de «Um amplo Movimento…»

Acesso
Público

Carta aos camaradas em Conakry [dactilografada em papel timbrado da FRAIN] Accra, 2 de Julho de 1960 Caros Amigos Fez ontem uma semana que aqui cheguei e lamento ter de vos dizer que está absolutamente tudo na mesma, isto é que não sei ainda se vou e quando vou. Acabo de telefonar ao amigo do Zito que me disse laconicamente que este ainda não voltou a casa, e acrescentou que é possível que ele não volte antes de 15 do corrente. Esta segunda informação ainda não me tinha sido dada, pois da última vez que falei c/ o tipo ele disse-me que era natural que a questão levasse entre 10 a 15 dias. Agora já está a aumentar e eu não sei que pense. O meu primeiro impulso foi de pegar nas malas e regressar para aí, mas preferi falar antes com o homem a ver se há possibilidade de abreviar a conversa. Sucede que com as festas da República há quatro dias feriado, que abrangem a próxima segunda-feira, pelo que só poderei falar com o homem na terça, data em que havia avião para aí. Quer dizer que em todo o caso talvez tenha de secar cá mais uma semana, mesmo abandonando a ideia de ir visitar o Zito, como aliás me aconselhou o seu amigo. Põem-se uma série de problemas: em primeiro lugar como conhecer a resposta do Zito na hipótese de eu regressar? Em segundo lugar, sendo a resposta afirmativa, como voltar aqui? Era sobretudo sobre estas duas questões que eu queria falar com o amigo do Zito antes de tomar qualquer resolução. Acontece por outro lado que eu se regressar dentro de dez dias, também podia a resposta vir nos três dias seguintes, pelo que não teria valido a pena regressar. Todas estas hipóteses, acrescidas do facto de que estou doente, me aborrecem extraordinariamente. A massa que trouxe ardeu. Já tive que trocar um conto de reis meu. Estou desde há dois dias instalado no African Affairs Centre, o que representa uma boa economia. Nem vou à Baixa, pois cada ida representa um montão de massa em transportes, pois nem sempre se encontra autocarro para o regresso. Já passei a tradução inglesa do documento, que pedi ao Cameron Duodu para corrigir. Enviei-a para todas as embaixadas aqui (arranjei um livrinho com os seus endereços) e mandei para a lista que junto. Vou enviar-vos alguns para mandarem para mais umas pessoas. Ando a ver se é possível publicar isso num dos jornais de cá. Esta época é muito chata para se fazer seja o que for, pois as festas ocupam toda a gente. Tivemos pouca sorte na época que escolhemos para esta viagem, já pelo que se passa aqui, já pelo que se passa lá por fora, em que as independências em série trazem as pessoas ausentes de casa... A propósito, telegrafaram para o Congo [Léopoldville]? Tenho a certeza que não deixaram de o fazer, pois é muito importante não esquecer os nossos vizinhos. Pensei mesmo que além do telegrama, seria bom enviar uma mensagem ao novo governo do Congo, em que exprimamos a nossa satisfação pela sua independência e a certeza de que ela muito contribuirá para a libertação da nossa terra. Ao que me informaram o Lumumba fez uma declaração, dizendo que a sua política externa seria baseada entre outras coisas na libertação de Angola, ao que alguém do governo portuga teria respondido agressivamente que o Sr. Lumumba devia preocupar-se com os problemas do seu país e não meter a foice em seara alheia. Aqui foi a rádio que se referiu a isso. Ninguém sabe nada do tal artigo de Salazar. Conto ir ainda hoje à Reuter, último sítio em que tentarei encontrar algo. Hoje quando estava no aeroporto a expedir o correio, vi que chegava de terras longínquas o doente do Hugo. Já tinha estado com o seu camarada, mas não sabia que ele regressava hoje. Tenciono ir vê-lo amanhã. É uma chatice estar sem notícias vossas. No entanto se receberem esta durante a próxima semana, creio que me poderão escrever aqui para o Centro. Mas não vale a pena se não houver nada de importante, até porque a carta pode não me encontrar. Em suma, terça-feira em conversa com o fulano decidirei se vale a pena ficar cá, ou se regresso para esperar aí qualquer coisa. Peço ao Mário que não se esqueça de falar com o Director do Gabinete do Ministro que me interessa. Como vai o pai? E a declaração ao povo português? Bem, até à vista. Abraça-vos o ass.) Lara PS – Acabo de ouvir Radio Brazzaville. Além de distúrbios no Congo, anunciou uma Conferência de Imprensa que alguém cujo nome não percebi deu em Londres em nome da FRAIN. A notícia foi desenvolvida. ANUNCIOU ALÉM DISSO NOVAS PRISÕES EM ANGOLA ENTRE AS QUAIS SÓ DEU O NOME DE AGOSTINHO NETO. É possível que também saibam alguma coisa disto. Será que o Abel [Amílcar Cabral] foi a Londres? Mas não era o nome do Abel. Talvez o Marcel [Marcelino dos Santos] c/ um pseudónimo. Estou a pensar que esta paragem forçada aqui está a emperrar aquilo que eu pretendia fazer quanto à Jornada. Queria aproveitar contactar alguém aqui, mas as festas estragam tudo. Consegui copiar a lista das organizações africanas. Sugiro que se passe já ao stencil um panfleto explicativo da coisa e que se envie (se possível c/ a brochura) às organizações pedindo que façam meetings em que aprovem resoluções a comunicar por telegrama ou por carta ao governo português e a nós. Não sei que passos já deram aí nesse sentido mas cá fica a sugestão. Creio que nestas condições é impossível contar com a brochura da Solidariedade, tanto mais que o tipo com quem estávamos a tratar está no Congo nas FESTAS, e só deve regressar pª a semana. Parece-me ser de editar à mesma qualquer coisa mesmo que apareça mais tarde. Escrevam-me através do Cameron Duodu. Ele ficou de me aparecer hoje, mas não o fez... Veio alguma notícia do Congo? É uma chatice estar sem saber nada do que se passa com as n/ coisas. E o ouvir as notícias hoje foi um acaso, porque sabia que tinha havido chatices no Congo e fui ao pavilhão duns tipos ouvir Brazzav. Em boa hora, pois apanhei assim aquelas notícias; sobre o Front disse umas coisas a respeito da organização... BYE...

Carta de Lúcio Lara (Accra) aos camaradas em Conakry. Está rasgada.

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